No Oeste: Família de agricultores de SC produz quase tudo o que consome

Exemplo de relação profunda com o campo, onde a produção familiar não é apenas uma fonte de renda, e sim um jeito simples de viver e ser feliz.

Em 31/03/2018 16:20

Reportagem por Agência de Notícias Qbo Mais

No Oeste: Família de agricultores de SC produz quase tudo o que consome

Sabe aqueles sítios antigos que produziam tudo o que era consumido pela família? A Neide Duarte foi visitar uma propriedade com esse perfil e conheceu pequenos produtores que têm uma relação profunda com o campo. É gente que vive da terra, que ama agricultura e também a natureza. Para a família Kern, a produção familiar não é apenas uma fonte de renda, mas um jeito de viver e ser feliz. Assista a reportagem

Eles são netos, bisnetos, tataranetos de alemães que chegaram em Santa Catarina no final do século 19, com muito trabalho, deixaram de herança aos seus descendentes, a terra, a criação, os grãos, as sementes.

Na comunidade de alemães, no oeste de Santa Catarina, na vizinhança do rio Uruguai, no município de São Carlos, vive a família Kern, Zuleica, a mãe, Waldemir, o pai, Davi o filho de 17 anos e Luiza, a filha de 11 anos. No sítio onde moram produzem feijão, arroz, milho, mandioca. Tem leite, pomar, horta, galinhas. São praticamente autossuficientes na alimentação.

Fazer compras não faz parte da rotina dessa família, quando eles vão ao mercado uma vez por mês, mais ou menos, é só para comprar farinha de trigo, açúcar, sal, café e erva mate para o chimarrão.

O tempo do chimarrão é o tempo do intervalo, da calmaria nos dias longos de trabalho duro para que as plantas vinguem, para que tudo brote, para que o alimento chegue dentro da casa livre de agrotóxicos.

“Acordo lá pelas 5h, aí eu levanto, faço fogo, faço a polenta, o chimarrão, a gente toma o chimarrão, toma café e sai para fora. A gente trabalha agora no verão um pouquinho mais de manhã e descansa mais um pouquinho de meio-dia, e depois que o sol fica mais brando, mais calmo, daí a gente vai mexer de novo. Os quatro cada um na sua função”, explica o agricultor Waldemir Kern.

A roça de feijão espera por Zuleica e a tia dela. E enquanto trabalham com a enxada, conversam na língua dos antepassados, o alemão. “É uma coisa que todo mundo ajuda. A família ajuda, mas é uma coisa que nós duas começamos e estamos fazendo”, conta Zuleica.

O arroz que brotou no campo, foi colhido e separado, hoje vai ser descascado. Waldemir coloca na máquina só a quantidade suficiente para o almoço do dia. A máquina não consegue limpar completamente o arroz, que passa para as mãos de Davi, Luiza e a prima deles, Edna.

Depois, num segundo momento de paciência, com a ajuda de um ventilador, expulsam as cascas mais teimosas do arroz.

Quem faz o almoço nesse dia é Davi Kern. No cardápio, arroz misturado ao feijão, purê de mandioca frito, salada de rúcula, capuchinha, repolho. Antes do almoço, Zuleica joga as cinzas do fogão à lenha nas verduras da horta para ajudar a controlar os insetos.

A engenheira agrônoma Keli Hoss e o técnico em agropecuária Rudnei Cenci, ajudaram na implantação da horta em forma de mandala e agora fazem uma assistência técnica para a Zuleica e o Waldemir. A mandala é uma horta circular que traz no meio, o galinheiro.

A Zuleica Kern tem 15 vacas, mas ela só gosta de fazer o queijo com uma delas, a Penha. “Porque ela é uma vaca que come só as coisas que nós temos na propriedade, nosso milho criolo, a mandioca daqui, o chuchu, abóbora, moranga, não come nada do transgênico”, explica.

A vaca Penha sustenta a família na hora do lanche, além do leite com café, a manteiga, a ricota o queijo. Eles criam um porquinho de cada vez, depois da engorda, matam o porco e congelam a carne que se conserva durante quatro meses. A banha chega a durar até seis meses. 

Zuleica conta o que ensina para sua filha, Luiza, de 11 anos. “Plantar mudinhas, como replantar, o jeitinho certo de colocar ela no centro do potinho, irrigar, pegar o adubo certo, às vezes a gente pega e vai lá no meio do mato, catar uma terra bem bonita é uma atividade que nós dois fazemos juntas e adoramos fazer, ir lá para o meio do mato, pegar a terra para plantar as mudinhas”.

Luiza conta como é viver na região. “Muito gratificante e assim é o melhor que se tem para viver porque eu sou muito diferente dos meus colegas. Eles moram na cidade, em apartamentos, eles ficam trancados o dia inteiro e eu posso ficar livre”.

O engenheiro agrônomo, Paulo Menoncini fala sobre a água das nascentes. “Essas águas têm as nascentes naturais delas aqui. Em duas delas, eles usam para três famílias e mais o salão da comunidade. Dois poços são protegidos e abastecem as famílias. O remanescente dessa água, a gente reservou para usar no sistema de irrigação do horto medicinal, no arroz e na horta da família”.

O leite é a principal fonte de renda da família. Os agricultores Waldemir e Zuleica coletam cerca de 120 litros por dia, três mil litros por mês e vendem para uma empresa da região que fabrica iogurte.

O Filho deles, Davi Kern, sabe tocar vários instrumentos e também pinta muito bem. “Estudo por minha conta. Tem o piano que eu estudo todos os dias”, conta.

Luiza acompanha o irmão. Eles cantam juntos. E o que ganham com a música ajudam a família.  Segundo Waldemir, juntando todas as atividades que a família faz, eles conseguem ganhar R$ 2,5 mil por mês.

Horto e as plantas medicinais
O horto de plantas medicinais ainda não gera renda, mas é uma promessa. São 85 plantas identificadas. Algumas são usadas para alimento, outras para a cura. Todas carregam uma antiga tradição na origem das suas sementes. O horto de plantas medicinais da Zuleica e do Waldemir não é só feito de plantas, mas também de alguns animais, usados para curar algumas doenças.

A família Kern recebeu o horto do Movimento de Mulheres Camponesas. As plantas estavam na casa de uma outra agricultora da comunidade, que se mudou para perto do asfalto e assim a família Kern ganhou essa herança.

As mulheres da região têm uma função fundamental na manutenção das chamadas sementes criolas, tradicionais. No Encontro das Mulheres Camponesas, elas trocam as sementes e falam da preservação dessa tradição.

A agricultora aposentada Nelci Endler fala sobre o encontro. “Essa semente tem que ter continuidade, ela não pode ser desperdiçada porque corremos o risco de perder a nossa semente. Essa semente criola, que já é patrimônio, nós colhemos, plantamos, cuidamos dessa semente. Ela não precisa de muito cuidado. Ela mesma dá a continuidade da produção”.

Todo o potencial que vive numa semente e passa de geração para geração, também vive na casa da família Kern. Davi quer fazer faculdade de música, mas tanto ele quanto Luiza, se preparam para, no futuro, cuidar da terra, plantar, colher. Os dois já levam dentro deles o potencial das melhores sementes.

Viver no campo com dignidade, em harmonia com a natureza; consumir alimentos frescos e valorizar a produção local. A história da família Kern nos convida a pensar sobre muita coisa. Será que essa vida que eles escolheram é coisa do passado ou do futuro?

Fonte|Foto:GloboRural

 


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